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Leituras do
Seminário 18 de Jacques Lacan
DE UM DISCURSO QUE NÃO SERIA DO SEMBLANTE
1971


Início: 04 de agosto 2020
Horário: terças-feiras, das 17:30 às 18:10h.
Funcionamento: 10 encontro quinzenais, via plataforma MEET.
Inscrições: para participar, os interessados devem enviar uma solicitação para o e-mail: bs.freud@uol.com.br,
com seu nome, escolaridade, profissão, motivação e instituição da qual faz parte.
Consideraremos as solicitações recebidas até 5 horas de antecedência do horário do encontro
para enviar a senha do ingresso.
Os participantes serão admitidos na reunião, 5 minutos antes do horário. Os ingressos encerram no início da atividade.
Coordenação:
M.Glória Telles da Silva,
Maristela Leivas e
Luiz-Olyntho Telles da Silva.

Leia aqui algumas das contribuições à discussão:


SEMINÁRIO 18 DE LACAN
De um discurso que não seria do semblant
13 de janeiro de 1971
Capítulo I. Introdução ao título desse Seminário

Contribuição de
Maria da Glória S. Telles da Silva
04.08.2020



•    Esse Seminário se constitui de 10 conferência (janeiro a junho de 1971) pronunciadas na Faculdade de Direito. O mais breve de Lacan, até então, exceto pela uma só aula do que seria o Seminário dedicado aos Nomes-do-Pai, em 1964.
•    Durante este Seminário, Lacan viaja ao Japão.
•    Lacan está interessado em explorar a relação entre a palavra e o escrito, ou seja, entre a letra e a palavra.
•    Inicia escrevendo no quadro negro o título do Seminário: De um discurso que não fosse do semblante.
•    Depois retoma o que havia desenvolvido no Seminário anterior (O avesso da psicanálise): Os discursos são 4.
•    O discurso do mestre não é o avesso do discurso da psicanálise; o avesso seria como dois lados separados; direito e avesso;
•    Retoma o texto O Inconsciente, de Freud, onde falou de dupla inscrição: Formulou duas hipóteses. Primeiro a topológica e depois a hipótese funcional: na primeira há uma inscrição da percepção no inconsciente que representa a ideia e há uma inscrição de uma representação desse elemento que será o seu pensamento no pré-consciente. Aí estaríamos no modo direito e avesso; na hipótese funcional, Freud atribuiu a uma mesma inscrição que seria a representação coisa no inconsciente e busca acesso através de um representante da representação pela palavra para a consciência. Considerando isto, Lacan elaborou a formalização dos discursos como torção. Não são dois discursos contrários, mas um que pode passar para o outro se há uma torção.
•    Daí que Lacan vai usar da estrutura da banda de Moebius para sustentar que esses dois discursos, mesmo estando em dois lados opostos, um tem continuidade no outro, passando por esse meio giro da torção;
•    Um discurso não tem por referência um sujeito. O discurso não é do sujeito, mas o determina.
•    Salienta que num discurso, o sujeito está ausente; por isso não se trata do seu discurso;
•    Daí o equívoco de pensar que há em falar de intersubjetividade; só se pode falar em intersignificação;
•    E afirma que um discurso é o que se articula a partir de uma estrutura;
•    Lacan pretende a subtração da presença, pois nisso consiste a vacilação do sujeito que só está quando um discurso se realiza;
•    Menciona a revista Scilicet 2/3, destacando dela dois traços: 1) ausência da presença, sendo esta o que faz marcar o mais-de-gozar. Lacan pretende ir mais além do que chama o incômodo das aparências, e isto está na base de pensar um discurso que não fosse do semblant. E destaca que a originalidade de seu ensino é o fato de que ele, a partir do discurso analítico, coloca-se, em relação ao público, em posição de analisante; 2) o segundo traço refere a escrita sem assinar, aposta que está no propósito da revista Scilicet, onde não havia assinatura do semblant. E diz da sua aposta: nenhum discurso pode ser autoral; ali isso fala.
•    Repete, ao longo da primeira aula, oito vezes o título do Seminário De um discurso que não fosse (do) semblant para:
1)    Dizer que esse é o discurso que dá posição ao analista;
2)    Dar nome aquele discurso que vai mais além do incômodo da aparência (Um discurso só existe se o denominamos e aí podemos interrogar-nos)
3)    Dizer que ao enunciar de uma forma hipotética, lembra a Freud no texto A denegação, quando examina os juízos de atribuição e de existência; alí diz que ao negar, estamos afirmando a existência e Lacan desliza para dizer que na sua formulação, espera dar existência a um discurso onde isso não fosse semblante, um discurso que possa portar um outro saber que não o do semblante de discurso que está para a lógica-positivista
4)    E que esse semblante não pode ser completado de nenhuma maneira por algum discurso;
•    Para o discurso, na psicanálise, não existe nada de fato. O fato que existe é o de dizê-lo; vale dizer que o discurso só existe no momento em que é enunciado; esse é o fato (a isso chama artefato); Entendo que Lacan chama a atenção aí para o que reúne seu público a escutá-lo, não importando o que será dito, mas por saberem que algo será dito. Um discurso vale não por ser discurso, mas por ser dito;
•    Esclarece que não se trata de semblante de discurso, já que isto está para sustentar uma posição lógico-positivista, que submete um significado a prova do sim ou não, e isto não tem sustentação desde a experiência analítica, onde a verdade da interpretação só sabemos pela consequência que desencadeia (só se é verdadeiramente seguida. Entendo que Lacan aponta aí que o efeito de verdade toca ao real (relacionado ao Édipo) e por isso não é semblante; é sangue vivo.
•    Lembra que no pensamento científico partiu do que a natureza oferece de mais aparente, que se sustenta no semblante, a observação dos astros (Descarte, Teoria dos meteoros, 1637). E toma o trovão como a própria imagem do semblante. E diz: O trovão é um sinal, mesmo não sabendo sinal do quê (essa inscrição do Trovão encontramos de forma brilhante no Finnegans Wake, de James Joyce). Daí que todo discurso é semblante. E lembra que os significantes também estão na natureza, estão aí e não são uma coisa individual (lembra que a letra A é uma cabeça de touro invertida);
•    Termina essa primeira aula falando do ponto mortal, o gozo, aludido por Freud no seu texto Mais além do princípio do prazer. O gozo é efeito de discurso. E o discurso do inconsciente é a emergência de uma certa função do significante e, Um discurso que não fosse (do) semblante teria de escrever as consequências desse impossível de se inscrever.

Fica a questão: o que pode possibilitar essa torção?

Contribuição de
Luiz-Olyntho Telles da Silva
04.08.2020

É, pois, da impossibilidade de o sujeito analisante expressar-se na língua que está à sua disposição para dar conta do que o atormenta, que ele busca, na relação de alteridade que estabelece com o analista, condições nas quais venha a criar, fazer com a língua, por meio do erro, das falhas de seu próprio dizer. Nessa condição do erro, do equívoco na fala – embora não intencional, ainda que não ocorra sem uma causa –, é nesse ato, pois, bem sucedido, como dizemos, que vai irromper o sujeito, que ele cria na língua, por meio da simbolização de um Real que insiste.
MARIA TEODORA DE BARROS OLIVEIRA, rodopiano, pp.61-2













O título desse primeiro capítulo indica o reconhecimento, por parte de Lacan, de uma certa ambiguidade concernente ao título do Seminário: D’un discours qui ne serait pas du semblant, traduzido por Vera Ribeiro por De um discurso que não fosse semblante. Pois essa ambiguidade deixa seus primeiros traços nessa tradução, que a leva a trocar o tempo e o modo do verbo, a suprimir a contração da preposição de junto ao artigo definido o, e a confundir semblant com semblante.

    A diferença entre os tempos é sutil, mas existe. Na frase de Lacan temos o présent du conditionnel, formado com o mesmo radical do futuro simples e a desinência modo-temporal do imperfeito, serait, que em português corresponde ao futuro do pretérito simples, seria. A tradução, não identificando a função do qui francês – o pronome relativo que –, confundiu o tempo e o modo do verbo do qual se serviu Lacan e usou, nesse lugar, o pretérito imperfeito do subjuntivo, fosse, que tem por função expressar dúvida ou desejo, nunca uma certeza, enquanto o futuro do pretérito expressa uma incerteza e também uma surpresa e uma indignação em relação a algo que poderia ter acontecido posteriormente a um determinado passado.
    Minha opção pelo futuro do pretérito apoia-se, como se vê, em outra desinência. Ao longo do seminário aparecerão as consequências de uma e de outra opção.
    A preocupação de Lacan, contudo, mais que com o predicado, parece-me ser com o substantivo – discurso – acompanhado de seu complemento nominal – do semblant. E para dizer o que entende por discurso, começa glosando não ser o dele. Pois eu posso afirmar que também não é o meu em questão.
    Ora, Lacan dedicara seu Seminário anterior justamente aos discursos que, de forma reduzida, ele faz questão de dizer, enumera quatro, marcando, para todos eles, uma estrutura tetraédrica e constante, por cujo quadrípodos giram os diferentes discursos, a começar pelo do mestre, sempre na mesma ordem, seguindo o da universidade, o do analista e o da histérica, salientando o que dissera no Seminário anterior, que o discurso do mestre não é o avesso do da psicanálise. Trata-se antes de torções, as quais buscam possibilitar o que Freud chamava de dupla inscrição, como fica claro em seu estudo sobre a negação: ao dizer esta não é minha mãe, a inscrição inconsciente inscreve-se também na consciência. Lacan, utilizando-se da cinta de Möebius mostrou a possibilidade disso sem a transposição de uma borda.
    O título do Seminário, ao ocultar o sujeito, diz, de per se, que o discurso não tem por referência um sujeito, mas sim que o determina. Partindo da intersubjetividade, Lacan joga com a presença do outro: em francês, a palavra presse serve bem para seu desígnio: é também a pressão do plus-de-gozar. E o radical inter, de intersubjetividade, de entre um e outro é expresso pelos símbolos S1 – S2, os significantes que dizem do sujeito na sua ausência, marcas do inconsciente.
    A passagem pelo discurso da universidade leva a marca do incômodo, por sua neutralidade, provocada pela busca da pureza da inter significação. Uma pureza que esconde o uso da língua como artefato, um recurso de Lacan para dizer que o fato só existe pelo fato de dizê-lo. E, uma vez tornado fato de discurso, pode-se fazer com ele qualquer coisa, de uma obra de arte a uma mentira, às vezes como expressão de verdade, embora os exemplos do último caso, desde Epimeteu, não abundem.
    Para dizer do semblant, galicismo já incorporado pelo dicionário Houaiss, com a conotação de exterioridade enganosa, Lacan contrapõe-se ao positivismo lógico, requerente, para sua comprovação, de uma verificação. Na psicanálise, nascida sob o signo de Édipo, de modo diferente, sabemos da verdade de uma interpretação por suas consequências. Na psicanálise, a interpretação desencadeia a verdade. É o que nos permite dizer, parafraseando um título dos Escritos, que o desejo é a sua interpretação. E o efeito dessa verdade, se não é semblant, e sim sangue vivo, sangue de Édipo, ele não refuta o semblant.
    O discurso como artefato é o nosso dia-a-dia, enquanto o sustentável é o da ciência, o qual começa pela aparência dos astros. Ocupa-se dos meteoros: o vento, a chuva e o arco-íris. O trovão é signo do nome do pai, muito bem representado no Finnegans Wake com palavras de uma centena de letras, indicando sempre novos inícios. O trovão é a imagem do semblant e o que importa mesmo é que o significante é igual ao status do semblant. Trata-se, enfim, da relação com o real genesíaco, desse real que sempre está.
    É nessa medida que não há semblant de discurso. Discurso é semblant na natureza (porque está na natureza) e um sujeito só pode ser produto da articulação significante. Sua forma genitiva objetiva – por sua atuação passiva – o determina, diferente do genitivo subjetivo, cujo princípio é ativo. Assim, o sujeito não determina a articulação significante, antes é por ela determinado.
    O reconhecimento da emergência do discurso do inconsciente, desde um real impossível, enquanto expressão do que não cessa de não se escrever é o que teria alguma chance de ser um discurso que não seria falso, para dar uma outra tradução possível às palavras de Lacan.

   
 

SEMINÁRIO XVIII, de Jacques Lacan :
De um discurso que não seria do semblante
20 de janeiro de 1971
Cap. II: O homem e a mulher
Contribuição de
Maria da Glória S. Telles da Silva
18.08.2020

•    Inicia esta aula retomando uma questão colocada na aula anterior: aonde quero chegar? Lacan faz uma torção e prefere explorar essa questão pelo seu avesso: de onde eu parto? ou, de onde quer fazer seu público partir. E explora dois sentidos: partir para ir a algum lugar com ele e também, saírem de onde estão.

•    Relaciona este aonde eu quero chegar com pergunta Che voui? e da importância que tem numa análise manter essa pergunta em suspenso, pois respondê-la de imediato produz uma inércia, o mesmo que dizer que não leva a lugar nenhum. Mas, como alí não fala desde o lugar de analista, diz que vai responder essa questão (de onde eu parto?).

•    Vou destacar três pontos que considerei essenciais dessa aula:

1º -  Lacan disse no Seminário anterior, O avesso da psicanálise, onde trabalhou e apresentou seus quatro discursos, que havia deixado um lugar sem nomear (o do agente do discurso), justo o lugar que dá nome ao discurso, dependendo de qual elemento ocupa esse lugar. Ele vai então dizer, nesta aula, que este é o lugar do semblant. O semblant (seguindo a indicação de Luiz-Olyntho para o uso dessa palavra que há em português e é mais adequada que semblante) vem a ser a função primária da verdade de um discurso: aquele que fala diz a verdade; destacando justamente que a revolução de Freud foi mostrar que o que faz sintoma, a dimensão do sintoma, no dizer de Lacan, é que isso (o inconsciente) fala; Por isso, a promoção do sintoma é tão importante, dirá que é mesmo decisivo. Só quando há um sintoma, há demanda para análise.

Vai também nos lembrar que a força que tem um discurso, é justo porque está marcado pelo elemento que ocupa este lugar. E ressalta que, especialmente no discurso do mestre, em torno do qual se organizam diversas civilizações, este tem sua força, não tanto pela violência - como poderia se presumir que ocorreram mas assim ditas sociedades primitivas -, mas por ter seu motor em um significante fundamental: é dali que o significante fala. Dito de outro modo, se um homem tem tanto valor quanto outro, o que eleva o seu discurso a um lugar de mestre é a força de seu dizer.

E nos diz que o fato da verdade ocupar o lugar que fica abaixo da barra do lugar do semblant, não significa ser o contrário do semblant. Simplesmente indica que a verdade é a dimensão, diz-mansão (mansão do dizer, que fica melhor em francês, dit-mansion) e que essa diz-mansão da verdade é o que sustenta o semblant. Ou seja, na posição daquele que emite um discurso, há uma dimensão da verdade. Isso é o que faz a força de cada elemento que nomeia um discurso. Daí que, o que fala do lugar do semblant, aparenta uma verdade, já que a verdade suporta o semblant.

•    Retoma ainda dois pontos da primeira aula: 1) que discurso é o (arte)fato, e 2) que semblant é o contrário do artefato. Aonde vai com isso? Nos indicar que as Ideias, como propôs Platão, compõem uma realidade que emana do discurso que dela construímos e isso graças ao significante que, mesmo sendo buscado na natureza, tem um valor de função e não de signo. Preserva o que não é dizível, ou seja, o real.

•    O discurso científico, o discurso articulado, tem sua referência no impossível, que é o real; já que é o real que faz furo no semblant, e por isso está sempre estimulando sua produção. O limite do discurso científico, do discurso, é o que não pode ser dito.

2º - Lacan dirá que o que nos concerne na psicanálise é o campo da verdade, que resiste e não é permeável a todos os sentidos, pois lidamos com o fantasma que é consequência do discurso; ou seja, o sujeito ($) quando interrogado pelo pequeno a, o mais-de-gozar, só pode produzir como efeito seu fantasma (essa é a formula do fantasma $<>a);essa é a verdade do sujeito, logo, impossível de ser toda dito, pois o que nos interroga é da ordem do Real.

3º - O mais importante desta aula, ao meu entender, está na parte 3 onde Lacan trabalha a diferença entre sexualidade e as relações entre o homem e a mulher, reportando-se a Freud. Deixa claro que sexualidade está para o universo do biológico e isso nada tem a ver com o que Freud descobriu como sendo o que move as relações entre o homem e a mulher, que é outra coisa; daí sua enunciação polêmica para dizer que entre humanos não há relação sexual.

Para explorar esse tema, toma como contraponto (e recomenta a leitura) o livro de Robert Stoller Sexo e gênero (1968), um livro de um psiquiatra e psicanalista americano que dedicou-se a estudar o tema do transexualismo (na revista Scilicet 4 há um artigo, Contribuição da psicanálise ao transexualismo, que toma como referência este livro de Stoller), onde, para Lacan, está colocado o desejo, a qualquer custo de mudança de sexo. O interessante é que Lacan toma aí uma posição, apontando para a desconsideração, nestes estudos de casos, da face psicótica, dessas estruturas, uma vez que o autor desconhecia o conceito de forclusão. E agrega: É próprio do destino do seres falantes distribuírem-se entre homens e mulheres e que o que define o homem é sua relação com a mulher e vice-versa. Pode-se dizer que, para Lacan, a definição de gênero homem ou mulher se dá sempre na presença de uma diferença que se instala na relação entre uma e outra posição. Jamais como definição intrínseca.
•   Portanto, a relação sexual está fundamentalmente para a ordem do semblant, na medida em que o que move a identidade de gênero, homem e mulher, situa-se, desde muito cedo, em identificar-se com um dos sexos. Lacan diz: Para o menino, na idade adulta, trata-se de parecer-homem, e que esse semblant sexual é veiculado por um discurso, para os seres de fala, o que faz com que as vezes, ao invés de cortejar uma mulher, o homem possa violar a mulher; ou seja, nem sempre o homem ou a mulher conseguem sustentar o semblant todo o tempo. E, afirma, que no limite do discurso está o real e aí pode se apresentar a passagem ao ato, o sair da cena, quando ocorre o rompimento do laço discursivo com o objeto plus-de-gozar, fazendo diferença com o acting, que é trazer à cena o semblant.

•    Destaca então que o mito do Édipo designa o impossível do gozo, por isso mítico, de gozar de todas as mulheres, e só pode ser apreendido desde sua contingência orgânica que conecta-se com os objetos pequeno a: seio, excremento, olhar e voz, sendo o falo, enquanto significante, o que normatiza esse gozo e que está, por isso, solidário a um semblant. Vemos aí Lacan nomear quatro objetos e um significante e que esse conjunto é o que organiza a relação gozo e semblant entre homem e mulher. Vai dizer assim: A identificação sexual não consiste em alguém se acreditar homem ou mulher, mas em levar em conta que existem mulheres, para o menino, e existem homens, para a menina. Para os homens a menina é o falo, e isso os castra. Para as mulheres menino é o falo, e isso o que as castra.

•    A tudo isso chamou de operação semblant, onde a mulher é para o homem a hora da verdade. Para o homem, gozo é semblant. Para a mulher, ela sabe que gozo e semblant são disjuntivos. Gozo e semblant podem se equivaler na dimensão do discurso, mas são distintos.
•    E termina esse ponto falando do provérbio Cherchez la famme, procurem a mulher. E agrega: para ter a verdade de um homem, seria bom saber quem é sua mulher, ou, para pesar uma pessoa, não há nada como pesar sua mulher. Já para a mulher...bem, não é a mesma coisa, visto sua enorme liberdade com o semblant.
•    Termina a aula com um dito no mínimo surpreendente. Diz que talvez só seja lacaniano por ter estudado chinês no passado. Refere-se a Mêncio (Meng Tzu, mestre Mêncio, 370 a.C – 289 a.C. Foi discípulo de Confúncio), cujo discípulo diz: se não encontrardes algo do lado do discurso (yen) não o procureis do lado do vosso espírito (ou coração, hsin). E se não encontrardes do lado de vosso espírito, não o procureis do lado de vossa sensibilidade (tchi).


Contribuição de
Luiz-Olyntho Telles da Silva
18 de agosto/2020

Quando alguém se prepara para um discurso, é costume tomar precauções com o objetivo de melhor comunicar-se com o público. Nesta aula de Lacan, não é diferente. Reparem em sua abertura com uma denegação: - Não foi para me garantir. Um recurso nada frequente em seu Seminário. Pois então, suponho que sua intranquilidade deriva do tema a que se propõe. Eu, pelo menos, fico muito intranquilo!

Falar sobre o homem e a mulher, um tema tão comum, nunca é fácil para quem não quer ser um mero charlatão. Vejam que também se preocupa com os que ouvem mal, no fundo da sala. Está bem, existem os fatores objetivos de acústica, mas também existem os subjetivos: não é raro os alunos pouco confiantes buscarem o fundo da sala. O entendimento requer conhecimento e referências anteriores, e o mestre quer seus alunos mais próximos de si.

Aonde quero chegar? é uma pergunta pelo desejo do Outro, equivalente ao Che vuoi?, de Cazzotte. E, justamente por ser uma pergunta importante, é preciso deixá-la em suspenso, tal como ele argumentará, ao final da aula, com Baltazar Gracián, ressaltando a importância do silêncio. Mas, enfim, o que Lacan quer é que todos passem para a frente, para junto dele.

1.
Na aula passada, falara do semblant, e agora o retoma como função primária da verdade, essencial para designar essa função, sem a qual é impossível qualificar o que se passa no discurso. Quando traduzimos ao português a fala da Verdade, o je parle, transparece aí o falo. E é na fala que se pode reconhecer o movimento revolucionário de Freud ao colocar em primeiro plano a função dos sintomas, tal como sugerira Marx, de quem foi contemporâneo (quando Marx morreu, Freud já contava 27 anos). E trata-se do sintoma como o que não funciona no Real. E o interessante é que o sintoma fala até com os que não sabem ouvir, mas não diz tudo, nem para os que sabem.

Interessante também que a função dos sintomas não é uma invenção, nem de um, nem de outro, mas algo que vem ronronando, há séculos. Quando Lacan usa esse verbo, ronroner, ele pode fazê-lo tranquilamente porque seu sentido primeiro, em francês, é uma referência ao ruído contínuo de qualquer geringonça, e depois vem a respiração do gato. Em português, a respiração do felino vem em primeiro. E quando fala no discurso, destaca o lugar do agente como definidor. Assim, podemos dizer que a função primária da verdade é sustentar o semblant.
S1
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Aqui fala o Lacan-analista-chinês: é desde sua cultura chinesa que ele reconhece a importância do mestre, um mestre que não foi formado pela Sorbonne nem por Oxford, nem por Salamanca, mas de um mestre que aprendeu da vida, no silêncio das meditações. É nesse sentido que o discurso do mestre não vinga pela força; é diferente da violência, algo muito distante, porém, da cultura ocidental que primeiro dava bolos nos alunos distraídos e que, depois, se desinteressou por eles. Agora, se isso era assim por tratar-se de uma cultura primitiva, não temos como saber. Lacan diz arcaica, e toma a raiz grega, ἀρχή. Contudo, a denotação primeira de arché é origem, princípio. E, então, leio assim: no princípio tem que estar o discurso do mestre. Os outros seguirão o estilo.

O interesse primeiro pelos outros discursos será uma forma de, como ele diz, de noyer le poisson, de afogar o peixe, uma forma de tapeação.

Então sua fórmula: o que chamamos de revolucionário consiste no deslocamento do discurso. E o discurso gira sobre suas quatro patas, aqui chamadas de godets. Está bem, godés são as forminhas onde o pintor mistura suas tintas, e Lacan as usa, muito provavelmente, para destacar o diferente colorido de cada discurso. Mas godets são também as pregas das saias plissadas usadas pelas meninas para ir ao colégio e que os homens elegantes seguem usando nas camisas próprias para os momentos de gala, e que servem para dizer dos desdobramentos do discurso, sujo semblant é sempre sustentado por uma verdade.
Aproveitando-se de outra pergunta indireta, Será Lacan um idealista pernicioso?, reforça a importância do semblant. Primeiro porque o discurso é o artefato, aquilo possível de tomar a forma que se queira, e o semblant é o contrário do artefato. Depois, porque o conhecimento já não deriva da percepção direta, como propunha Berkeley, para quem ser est percipi, e sim de um discurso. E do discurso de Aristóteles ele vai dizer que se comporta como um místico por destacar a importância da ousia, i.e., do Real. Acredito que se possa aproximar isso da arché, pois a ousia conota einai, a essência, a substância (de substare). Trata-se de algo da ordem do indizível – isto é o místico –, mas de algo que se busca argumentar.

Será, então, idealista? Não, porque para o idealismo o mundo só pode ser compreendido a partir de sua verdade espiritual. E também não é nominalista, pois seria um absurdo para ele não acreditar nos universais e teria de renunciar ao materialismo dialético, i.e., teria de renunciar à compreensão de que a matéria está em uma relação dialética com o social e com o psicológico, mas o importante é assinalar que o discurso científico só encontra o Real na medida em que depende do semblant. A articulação algébrica do semblant é o único aparelho por meio do qual designamos o Real, na medida em que o Real é o que faz furo nesse semblant articulado que é o discurso científico que só tem como referência a impossibilidade a que conduzem suas deduções.
2.
Os prolegômenos acima são para diferençar a psicanálise da ciência, pois o que do Real nos concerne, difere de sua posição na física. Trata-se de algo que resiste e que se chama o fantasma, relação que é rompida no discurso do mestre por uma impossibilidade a ser resolvida no discurso do analista,
 
quando o $ estará em frente ao semblant do plus-de gozar. Então aparece aonde Lacan quer chegar: ao plus-de-gozar pressionado, uma espécie de passer au caviar, um método de censura usado na Rússia de Nicolau 1º, com o sentido de denegrir, algo que não tem nada a ver com o que Freud chamou de discurso do líder, mas que, sem dúvidas, o destaca. E aqui ele recorre, por engano, ao final do capítulo VII, A identificação, de Psicologia das massas e análise do eu, de Freud, quando se trata do final do capítulo VIII, Estar amando e hipnose, para resgatar daí o esquema da introjeção do líder no lugar do Ideal do eu e o exemplo que dá é o do bigode de Hitler, tomado como modelo do traço unário, do einziegerzug, para a identificação, compreendido aqui como
 
plus-de-gozar, vale dizer como a faceta de gozo do traço unário, sua subjacência sexual. É o que acontece com o discurso.

3.
Para Lacan, a sexualidade é importante desde o ponto de vista do que ele chama de rapport sexuel, onde rapport tem três sentidos: o mais antigo é o de relato, depois vem o de proporção e, finalmente, o de relação. É nesses sentidos que o rapport não existe, quer dizer, que não existe de forma definitiva. Os infindáveis romances de amor estão aí para provar que o relato definitivo nunca foi escrito; as proporções entre o homem e a mulher são desequilibradas e não existe a relação absolutamente satisfatória: nem bem se termina uma e já se pensa na seguinte.

E, para examinar a diferença dos sexos, conforme ao seu estilo de ir aos estremos, parte das posições transexuais, lembrando que Robert Jesse Stoller, em suas Pesquisas sobre a identidade sexual a partir do transexualismo, de 1979 (o Seminário é de 1971, mas a indicação... o original é de 1968), deixa de fora, completamente, a face psicótica desses casos. Ele não toma em consideração a forclusão lacaniana.

No final, o que importa, é isso: o que define o homem é sua relação com a mulher, e vice-versa. Para o menino, na idade adulta, trata-se de parecer homem para a mulher; trata-se da dimensão do semblant, uma dimensão comum, lembra Lacan, aos vertebrados tetrápodes (os que tem quatro membros), nos quais, na maioria dos casos, o macho é o agente da exibição. A mulher é o alvo dessa exibição: ela depende dessa exibição para sua excitação. Essa exibição pode surgir também no discurso e é nesse nível que, para ela, tratar-se-ia de um discurso que não seria do semblant. Então, sem a cortesia animal, acontece o rapto, a violação, que está tanto para o homem como para a mulher. – No acting-out, é o semblant que passa à cena.

O discurso é o que permite o plus-de-gozar, tomado aqui como o que está interdito no discurso sexual. E então ele solta uma de suas invectivas picantes: Não há ato sexual. E, quanto a mim, só posso entender que esteja se referindo ao ato como sendo definitivo, porque os outros existem, e fazem a fortuna dos motéis.

O mito de Édipo, o hipermito, como enuncia Lacan, mostra como o Real se encarna no gozo sexual como impossível, quer dizer, como algo que não sessa de não se escrever. É assim que o Édipo designa o ser mítico, cujo gozo seria o de todas as mulheres.

Então, para haver identificação sexual, não basta se acreditar homem ou mulher, é preciso levar em conta que existem mulheres para o menino, e que existem homens, para a menina. Em outras palavras, o homem precisa acreditar-se junto à mulher, e a mulher precisa acreditar-se junto ao homem. E o importante é que, para os homens, a menina é o falo, e é isso que os castra; para as mulheres, o menino é o falo, e isso é o que as castra.

E esse falo, ele é o Real do gozo sexual, equivalente ao nome-do-pai.

É depois de todas essas premissas que Lacan perguntará pelo lugar fundador do semblant. Como resposta, dirá que a mulher é a hora da verdade para o homem. O homem se prepara por toda a vida para esse enfrentamento, muito mais difícil do que enfrentar um rival. Lembrei de Acteon morto por seus próprios cães quando quis alcançar Ártemis/Diana.
É que enquanto, para o homem, semblant equivale a gozo, para a mulher há uma disjunção entre esses dois elementos; ela sabe que é semblant. E quando queremos saber do homem, Lacan recomenda: - Cherchez la famme; ela é a verdade do homem, embora, aqui, contudo, a recíproca não seja verdadeira, porque a mulher tem uma enorme liberdade com relação ao semblant. E como, neste momento do seminário, há muitos risos, Lacan acrescenta: - A mulher consegue dar peso até a um homem que não tem nenhum.
4.
Essas são verdades de sempre, faladas boca a boca. Quando surgem na literatura, ditas por alguém que sabe o que diz, é preciso prestar atenção, como por exemplo Baltazar Gracián, no seu L’homme de cour, de 1646, no qual destaca a importância da prudência e da dissimulação (uma variação do proposto por seu contemporâneo, o Cardeal Mazarino: contém-te e abstém-te, equivalentes a simula e dissimula, estando a simulação no lugar da prudência, com o sentido de conhecer-se a si mesmo e a dissimulação no sentido de conhecer ao outro.) Para tanto, diz Gracián, o silêncio é o santuário da prudência, recomendando a imitação de Deus, esse Deus que mantém todos os homens em suspenso, e assim ser um santo, palavra que para ele tem o mesmo sentido do ideograma chinês shénshèng, 神聖 [, Deus e , santo], que quer dizer sagrado.



SEMINÁRIO 18 DE LACAN
De um discurso que não seria do semblant
10 de feveiro de 1971
III. [O] Contra [d]os linguistas
Contribuição de
Maria da Glória S. Telles da Silva
1º de setembro de 2020


•    Lacan começa esta aula comentando sobre a greve1  que ocorria em Paris neste dia e diz: Não faltarei à presença de vocês. Lacan fala de seu compromisso com seu público, e que o que o leva a manter sua aula é a cortesia ou o yi, em chinês, ou seja, responder com imparcialidade; é uma das quatro virtudes fundamentais.2

•    Lacan propõe ao seu público uma conversa familiar, diferente do que havia pensado em falar, em função de um artigo saído no jornal que tratava sobre os investimentos na Universidade, sobre o qual não parece muito de acordo. Diz que sua guinada é o modo de levar em conta a greve.

•    Refere então que sua relação com a Universidade é marginal, embora lhe deva respeito por ter sido acolhido por ela. Menciona então os muitos ruídos incidentais, ecos e murmúrios que têm chegado a ele desde o campo universitário da linguística. E faz referência especialmente a um artigo de um linguista, que havia saído há 2 anos na revista La nouvelle revue française (nº 163 de 10 de janeiro de 1969) [o linguista é Georges Mounin, e o artigo chama Quelques traits du style de Jacques Lacan], onde ele faz muitas críticas ao modo como Lacan empregou a linguística no campo da psicanálise. Mounin chamou o uso feito por Lacan dos conceitos lingüísticos de coloração estilística, eque só é justificada pelo contexto intelectual da época.3

•    Lacan lê neste artigo a sineta que teve que ouvir, embora seja surdo, indicativo de que seu lugar não é sob a marquise da universidade.

•    Daí passa a questão que considera relevante colocar neste momento: Será que se é estruturalista ou não quando se é lingüista? E, daí, se diz funcionalista, referindo que o estruturalismo é uma coisa que serve de rótulo para dizer da seriedade daqueles que se reservam o direito de falar sobre a linguagem. E busca examinar a relação da linguística com o que ele ensina. Diz que é em torno do desenvolvimento lingüístico que sustenta o eixo do seu ensino e se faz um uso metafórico da linguística, acusação desdenhosa de Mounin, é por reconhecer que só existe linguagem metafórica. Coisa que os linguístas parecem ignorar. Daí considerar abusivo reservar aos linguístas o direito de falar da linguagem. E mais adiante, em dois momentos, diz:

A linguística só pode ser uma metáfora que se fabrica de propósito para não funcionar e que a psicanálise desloca-se com todas as velas desfraldadas por essa mesma metáfora. [pg.44 e 50]

•    Sustenta que, fala como psicanalista e se tem um público que o escuta é porque algo ele sabe. E aí coloca nos seguintes termos o seu saber: Digamos que...Eu sei a que me ater, e faz diferença do enunciado, Sei onde me posiciono [pg. 40].

•    Argumenta que ninguém sabe o que diz ao dizê-lo, ninguém tem o mapa, mapping, para dizer onde estamos. Entendo que aí Lacan aponta a duas vertentes. A primeira ao fato de que não somos donos de nosso dizer e nunca podemos afirmar uma posição definitiva, na medida em que só sabemos do resultado ao final, seja de uma frase, de uma cura, de uma vida. Aí saberemos onde chegamos, logo, onde estamos. Do contrário, estamos sempre no caminho, sem saber bem aonde vamos chegar. A outra vertente, é o fato de que é só pela relação com o Outro que podemos situar onde estamos.

•    Aí se detém no discurso da ciência, que repudia esse onde estamos, o incerto desse lugar, já que a toda hipótese formulada busca a verificação da sua verdade, mas, alerta Lacan, isso nada prova a verdade da hipótese, pois na lógica, se pode tirar uma conclusão verdadeira de uma premissa falsa.

•    Ninguém pode afirmar: Sei o que digo. Isso foi o que a descoberta freudiana nos ensinou. Nenhum discurso é dono da verdade. Ninguém sabe ao certo o que diz. Só sei que nada sei, já dizia Sócrates E a causa disso está na própria estrutura da linguagem.

•    Diz que para a linguística ele está se lixando, o que lhe importa é a linguagem, já que é com ela que lida quando faz uma psicanálise. [pg.43]

•    O referente de um discurso é sempre real, por isso impossível de designar, e toda designação é metafórica. O significante evoca um referente, mas nunca o certo e assim construímos uma linguagem.

•    Lacan então trabalha o ideograma japonês wei, dizendo que pode significar tanto agir ou ter a acepção de como, servindo de conjunção para construir metáforas, ou seja, para referir-se a outra coisa. O verbo transforma-se numa conjunção. Diz Lacan: Quando uma coisa se refere a outra, da-se a maior amplitude, a maior flexibilidade ao uso eventual desse termo, wei, o qual, no entanto, significa agir [pg. 44/45]. E diz que isso lhe ajudou a generalizar a função do significante. E lembra a frase de Fausto, de Goethe: no princípio está a ação, dizendo que é o mesmo que diz São João: no começo era o verbo; para dizer da força que está contida no ato inaugural da palavra.

•    Fala, então, da articulação dupla, (conceito que o linguista Andrés Martinez formulou e que fala dos dois níveis – morfemas e fonemas – que se articulam nas palavras) e faz uma crítica a que numa língua como o chinês, essa articulação é bem mais bizarra, já que os fonemas, sozinhos, já tem significação e quando se juntam para formar uma palavra, esta não tem nenhuma relação com o que os fonemas significam.

•    Menciona também dois conceitos criados pela linguística: competência e performance.4

•    Discorre sobre o discurso do capitalista5, onde há uma troca de lugar dos elementos do semblant e da verdade. O sujeito, colocado no lugar da verdade no discurso do mestre, ocupa o lugar do semblante no discurso do capitalista, onde o S1, significante mestre, fica sob a barra, no lugar da verdade.

   (ver ao lado)

•    Essa inversão, indicativa da relação do mestre moderno (o capitalista), leva a uma ligação cruzada do sujeito com o produto, mais-de-gozar, fazendo nascer o sujeito sem limites, por estar nessa ligação cruzada em que o gozo não cessa de se inscrever, o que levaria ao consumir-se na busca incessante de produzir o gozo, onde o suporte do mais-de-gozar é a metonímia. Na conferência de Milão, Lacan dirá que o discurso capitalista é loucamente astucioso e destinado a explodir.

•    Isso se desprende de um discurso desenvolvido (o discurso do capitalista). Mas o que é um discurso desenvolvido para Lacan? Depois vai falar em lógica subdesenvolvida. Outra interrogação para muitos.

•    Diz: quando um discurso está suficientemente desenvolvido, alguma coisa, da qual nada se sabe, e que tem relação com o que chamou do hsing, da natureza, e ming, decreto do céu, causa interesse. Em nosso campo, isso é o sintoma:

O sintoma: é por ele que vocês se orientam, todos vocês. A única coisa que lhes interessa e que não e um completo fiasco, que não e simplesmente inepta como informação, e aquilo que tem o semblante de sintoma, isto é, em principio, coisas que nos dão sinal, mas das quais não compreendemos nada. É só isso que há de seguro: há coisas que nos dão sinal e das quais não compreendemos nada [pg. 49].

•    Por fim, nisso da natureza, no sintoma que não funciona, tem algo de insatisfatório.


Notas:
1.  Greve, vem do francês grève, terreno de areia ou cascalho a beira do mar ou beira-rio. Era na Place de Grève (hoje Place de l'Hôtel-de-Ville), na margem do rio Sena, e Paris, onde se reuniam os trabalhadores sem emprego ou insatisfeitos com seu trabalho, deu origem a palavra greve.
2. Na minha pesquisa, encontrei que Yi é justiça, e faz parte de dois conjuntos de conceitos fundamentais: o Sizi, com quatro elementos: (Zhong (忠, lealdade), Xiao (孝 , a piedade filial), Jie (节, continência) e o Yi, e também do Wuchang, com cinco elementos: Ren (a Humanidade), Li (ritual), Zhi, (conhecimento) e Xin (integridade) e Yi (justiça). Podemos equivaler o responder com imparcialidade, de Lacan a justiça
3.  Cardoso, Maurício José d’Escragnolle. Retorno sobre a influência de Saussure sobre Lacan. Artigo publicado na revista Analytica (São João del Rey), v.1, n.1, de junho/dezembro de 2012,
4.  Na obra Aspectos da Teoria da Sintaxe, publicada em 1965, Chomsky define como competência o conhecimento que o falante-ouvinte possui da estrutura da língua e desempenho como o uso concreto que ele faz da língua, mas o considera uma realização imperfeita oriunda de fatores físicos e psicológicos.
5.  O matema deste discurso foi apesentado na conferência de Milão, em 1972: http://espace.freud.pagesperso-orange.fr/topos/psycha/psysem/italie.htm

Contribuição de
Luiz-Olyntho Telles da Silva
1º de setembro/2020

Lacan não tinha o costume de batizar cada uma das aulas de seu seminário com um título. Deduzo então que cada um dos títulos das aulas constituintes de seus Seminários seja coisa de seus editores. Não é má ideia! Ajuda o leitor a situar-se no tema a ser desenvolvido.

Neste 3º capitulo pareceu-me conveniente modificá-lo, justamente para dar uma noção mais precisa do tema a seguir, pois, nele, Lacan, para os linguistas, é quase só elogios. O que Lacan faz, neste momento, é valer-se da crítica que lhe fazem os linguistas para dizer o que pretende: a importância da metáfora na construção da linguagem.

A crítica dos linguistas, na verdade, de alguns linguistas, é que Lacan, da linguística fazia um uso apenas metafórico.

Uma das justificativas para tal, está na diferença entre sei a que me ater e sei onde me posicionar. Parece-me como se o importante fosse o objeto da observação, mais do que a posição do observador. O discurso da ciência, diz ele, repudia esse onde me posiciono. É porque a hipótese não se comprova que Newton teria criado a expressão hypotheses non fingo; ele não a simula porque, enfim, como diziam os escolásticos, ex falso sequitur quodlibet, de uma premissa falsa podemos concluir uma apódose verdadeira. O cientista precisa ter a coragem de abrir mão da hipótese quando se comprova errada.

Por outro lado, o importante é ater-se ao objeto em questão. No caso, ao inconsciente. Daí sua formulação de saber que o que se diz é o que não se pode dizer. Lacan é socrático no seu só sei que não sei. Para compreender o inconsciente há que valorizar o significante na construção da linguagem, pois não há metalinguagem, e é pelo referente nunca ser o certo que se constrói a linguagem.

Estamos todos lembrados de Lacan tomar suas bases na linguística de Saussure, invertendo seu signo linguístico, mas mantendo, porém, o valor da imagem acústica do significante e identificando esta imagem com o Real impossível de designar. É na busca de tornar possível esse impossível que se forma e desenvolve a linguagem, mesmo embora essa linguagem esteja prenhe de enganos. E são justamente esses enganos que o levam a buscar apoio na Teoria das Descrições, de Russel: é porque as descrições do objeto são sempre enganosas, como mostra a lógica da linguagem-objeto, que nunca estamos certos sobre o referente.

É então que Lacan lembra de suas aulas de chinês, da função metafórica dos ideogramas. Pois bem, como eu não sei chinês, e meu conhecimento dessa língua é apenas enciclopédico, minha crítica fica sempre com uma dúvida. Quando ele está falando da ação, na parte 2, falando da inação, do wúwéi, 無為 [onde quer dizer não e traduz-se por para], diz que todas as palavras [em chinês] são monossilábicas, enquanto a enciclopédia diz que sim, que o chinês é considerado uma língua monossilábica, porque cada sílaba tem um sentido, mas as palavras, em geral, ela acrescenta, são dissilábicas, aliás como vemos em seu próprio exemplo. Quando a escrita foi estabelecida, na China, por imposição do imperador Qin Shi Huangdi, no terceiro século a.C., os dialetos permaneceram e, para um mesmo signo, ideias, sentido e pronúncias diferentes foram mantidas, e o valor final para sua compreensão vem dado pelo sentido do tema da conversação. É a isso que é preciso ater-se.

Em português, também acontece algo assim. A mesma palavra, com a mesma pronúncia, pode ter sentidos opostos, dependendo da entonação e do contexto. Formidável é um exemplo: pode significar tanto algo maravilhoso, como algo desprezível, dependendo do que ela é for mi, como canta Charles Aznavour. Com a palavra bárbaro acontece o mesmo, assim como com tantas outras. E sobre a importância do valor silábico, lembrei de um exemplo de Freud, quando quer lembrar do nome da capital de Monte Carlo e a palavra não lhe vem à consciência, ficando retida na memória. Em seu esforço para lembra desse termo, lembrou-se do Rei Alberto, de suas façanhas, de seu grande amor pelo mar que resultou naquele importante museu oceanográfico, construído sobre o penhasco, e de cujas janelas sempre se vê o mar. Lembrou também, junto de Monte Carlo, de Piemonte, Albânia (logo substituída por Montenegro), mais Montevidéu e Cólico. Reparou então que quatro das cinco palavras continham a sílaba mon, sem nenhum significado, mas cujo reconhecimento foi o suficiente para lembrar o nome da capita: Mônaco. A sílaba final estava em Cólico. Mas lembrou também que Mônaco é a palavra italiana para Munich, que em português dizemos Munique, cidade que estava ligada a um episódio de sua vida ao qual atribuiu a função inibitória da lembrança.

Na parte três, Lacan trata do discurso do capitalista, no qual, a partir do discurso do mestre, há uma inversão entre os lugares do semblante e da verdade.

 

As consequências têm a ver com a relação do sujeito, $, com o gozo, a, o que, a bem dizer, interfere no propósito primeiro de um discurso que é o de fazer laço social, pelo menos o laço social que se espera de uma análise, na qual o reconhecimento do outro esteja em primeiro plano. O exemplo que aí nos dá é o de Nixon, uma espécie de máscara do verdadeiro Houphouët-Boigny, esse político, presidente da Costa do Marfim, que construiu uma fortuna de algo entre sete e onze bilhões de dólares às custas da miséria de seu país. Richard Nixon, em todo o caso, diz-se, foi analisado, o que bem mostra os efeitos de uma análise levada a efeito sob o signo da perversão; e estou dizendo perversão onde Lacan diz tratar-se de algo da ordem do incurável.

SEMINÁRIO 18 DE LACAN
De um discurso que não seria do semblant
17 de feveiro de 1971
IV. O Escrito e a Verdade
Contribuição de
Maria da Glória S. Telles da Silva
15 de setembro/2020

•    Lacan inicia essa aula apresentando uma formulação de Meng-Tzu (Mêncio) escrita no quadro-negro.
•    Ele segue ocupado com a questão: qual é a função da escrita?(pg. 52)1. Sobre a inscrição, dirá que ela designa o seguinte:

Tudo o que está sob o céu [T’ien hsia], não é outra coisa que a designação da fala, [yen, que pode ser entendida como a natureza], a natureza do ser falante (pg.54), que se identifica pela linguagem, e que em relação à natureza do animal, tem uma diferença infinita. Quanto aos efeitos do discurso que está sob o céu, destaca a função da causa, que é o mais-de-gozar. E os ideogramas tse ku, refere-se a em consequência da causa.

•    Nesta aula, sua preocupação é com a causa.
• Aí, Lacan novamente afirma que a linguagem adquire sua importância, na medida em que tudo a que se refere é sempre de modo indireto, ou seja, o mesmo que disse na aula anterior a respeito do uso metafórico da linguagem.
•    Faz uma critica ao livro The Meaning of Meaning2, O sentido do sentido (1923), do educador Ivo Armstrong Richards e do lingüista Charles Kay Ogden, ambos ingleses, que, sustenta o princípio, a partir do positivismo-lógico, de que o texto tenha um sentido apreensível (pg.54) e que uma coisa que não tem sentido, não pode ser essencial no desenvolvimento de um discurso (pg. 55), logo, não podemos tirar proveito do que, a priori, não tem sentido. Ora, Lacan mostra que se assim fosse, primeiro que não mais poderíamos nos valer do discurso matemático, que, de todos, é o desenvolvido com maior rigor. E, lógico, em nosso campo, se déssemos valor a esse princípio perdemos fio da meada [pg.55].
•    Daí dirá que o essencial é atentar à função do escrito.
•    Situa, então, o discurso do analista como sendo a lógica da ação, da ação do analista, logicamente, e diz que o fato de ter escrito o discurso é o que fez muitos não entenderem o que estava ali. Aí faz uma diferença entre o escrito e a fala. Esta, a fala, abre caminho ao escrito, e o escrito exigirá inserir nele uma fala para que possamos entendê-lo.
•    Lacan parece estar de acordo ao provérbio em latim Verba volant, scripta manent, e diz que mesmo que se escreva uma porção de coisas que ninguém entenda, está escrito. E justifica assim o nome que deu ao seu Escritos. Escritos que levam a grafos, a esquemas, que só podem ser compreendidos com um discurso que tem seu estilo, sempre particular, qual seja, fale, fale e combine coisas, pois é a fala que abre a trilha desses grafos. Só o tagarelar abre a Caixa de Pandora, de onde saem todos os dons da linguagem (pg. 58), dirá Lacan. E agrega que, como a função definida pelo discurso analítico não é livre, mas ligada por condições que são as do consultório analítico, cujo motor está ligado ao Sujeito suposto Saber, que define, não só a transferência, mas o fato de supor que o psicanalista sabe o que faz.
•    No seguimento de diferenciar o escrito da linguagem, Lacan lembra que o escrito é segundo, vem depois da linguagem falada, mas que só se constitui a lógica a partir do escrito. Daí que
   pensar a relação3, só é possível com a escrita.       a b     
      
•    Nesse modelo de escrita, predomina a lógica da dualidade, e Lacan dirá que isso vem do modelo dos signos chineses yin e yang (os princípios femino e masculino). Com o discurso analítico, mais especificamente, a função do falo, torna insustentável a bipolaridade sexual. O falo não se refere tanto a representar a falta de significante (como alguns acreditam, diz Lacan), mas a sua função de fazer obstáculo a uma relação, e esse obstáculo se refere a sua relação com o gozo, que nada tem a ver com a função fisiológica sexual, mas desse gozo que tem relação com o real: o gozo feminino. Volto ao que Lacan disse na segunda aula: para os homens, a menina é o falo, e é isso que os castra. Para as mulheres, o menino é a mesma coisa, o falo, e ele é também o que as castra [pg.33].
•    A inscrição do falo está diretamente associada a passagem do SER ao TER, sendo essa passagem condicionada à castração, que é o instaura a lei sexual, substituta de tudo que está no campo da relação sexual. Esta lei, diz Lacan, é coerente em todo o registro do que se chama desejo e do que se chama proibição. O proibido é o que aciona o desejo.
•    Da questão falo, desejo, lei sexual, Lacan desliza para mito freudiano do Totem e tabu, e vai valer-se do esquema das proposições universais e particulares, afirmativas e negativas de Chalrles Sanders Pierce para abordar, de forma lógica, a questão de não há um universal da mulher, logo, o  [pg.64]. Logo, o mito Totem e tabu, de um pai da horda que goza de todas as mulheres, está fundado sob a estrutura da ficção. Como, segundo J. Bentham4, a verdade tem estrutura de ficção, temos ai uma verdade.
•    Encaminhando para o final da aula, traz a questão da verdade: de onde se interroga a verdade? É que a verdade pode dizer tudo o que quiser. É o oráculo. [pg.66] Lembra o seu escrito A coisa freudiana, onde já havia enunciado que a verdade fala eu.[pg.66] No referido texto, Lacan formula um pouco diferente. Lá escreve: eu, a verdade, falo.5 Isso tudo é para chamar a atenção de que só temos acesso a verdade, ou melhor, só podemos dizer que algo é mentira ou verdade, a parir do escrito, pois quando se fala, é muito difícil apontar a contradição. Na fala, a verdade só irá aparecer desencadeada, ou seja, no momento em que ela irrompe da cadeia discursiva como, por exemplo, via lapsos, ou atos falhos.
•    E vai concluir com uma pontuação interessantíssima. A liberdade só existe e se justifica pela inexistência da relação sexual. O desejo insatisfeito está sempre a impossibilitar a conjunção perfeita do homem com a mulher. Diz assim: Se houvesse um homem para quem A mulher existisse, seria uma maravilha, teríamos certeza de seu desejo. [pg.70] À essa elucubração feminina, responde-se com a formulação romântica Era fatal, estava escrito! Ou seja, isto só existe no escrito. 
_____________
Notas:
1. Por isso o interesse de Lacan nos ideogramas chineses, pois eles são sinais gráficos que representam palavras ou conceitos. Não é uma leitura direta.
2. O significado do significado: um estudo da influência da linguagem sobre o pensamento e da ciência do simbolismo (1923), livro de CK Ogden e IA Richards. Richards apresenta uma teoria contextual de Signos: que Palavras e Coisas estão conectadas por meio de sua ocorrência junto com as coisas, sua ligação com elas em um 'contexto' em que os Símbolos passam a desempenhar um papel importante em nossa vida [até] a fonte de todo nosso poder sobre o mundo externo(47). Neste sistema de contexto, Richards desenvolve uma semiótica tripartida - símbolo, pensamento e referente com três relações entre eles (pensamento para símbolo = correto, pensamento – referente = adequado, símbolo– referência= verdadeiro) (11). Símbolos são aqueles signos que os homens usam para se comunicarem e como instrumentos de pensamento, ocupam um lugar peculiar (23). Toda simbolização discursiva envolve [...] entrelaçar contextos em contextos mais elevados (220). Portanto, para que uma palavra seja entendida é necessário que forme um contexto com outras experiências.
3. Uma relação é um vínculo ou uma correspondência. No caso da relação matemática, trata-se da correspondência que existe entre dois conjuntos: a cada elemento do primeiro conjunto corresponde pelo menos um elemento do segundo conjunto. Quando a cada elemento de um conjunto corresponde unicamente um ou outro, fala-se de função. Isto significa que as funções matemáticas são sempre, por sua vez, relações matemáticas, mas que as relações nem sempre são funções.
4. Filósofo e jurista inglês (1748 – 1832),
5. Lacan, J. La cosa freudiana . In: Escritos. Siglo Veintiuno Editores, Argentina,1987.

Contribuição de
Luiz-Olyntho Telles da Silva
15 de setembro/2020

Lacan continua, neste capítulo, o relato de seus amores com o chinês. Ajuda-lhe a ressaltar a importância do escrito frente a sua interpretação particular da linguagem. Digo particular porque, da langage, o Petit Robert diz ser um sistema de signos vocais (parole) e, eventualmente, de signos gráficos (écriture). Sim, os signos gráficos são eventuais, mas não excluem o escrito da linguagem. O registro disso me parece importante justamente para reforçar a importância da escrita.

No segundo logograma da primeira frase do mestre Meng, 下, tiān, Lacan traduz esse ideograma como parole, a fala, mas também, como ele mesmo diz mais adiante, pode ser traduzida como linguagem. Aliás, toda a frase da primeira coluna da direita
 
pode ser lida como A linguagem do mundo também é.

Em todo o caso, o importante é que o escrito serve como uma referência estável, tal como reza o ditado medieval, verba volant, scripta manent. E uma variante desse mesmo brocardo é muito exemplificadora:
Sit verbum vox viva licet, vox mortum scriptum,
scripta diu vivunt, non ita verba diu.

(É verdade que a palavra é viva voz e que o escrito é voz morta,
Mas o que é escrito vive muito e o que é dito, nem tanto.)

A importância da linguagem é que tudo o que se refere a ela, vem de um modo indireto. Haja visto a dificuldade com as traduções: o que na tradução brasileira, e ao espanhol também, 則故, aparece como Tse ku, na versão francesa, de Staferla, aparece como Zé gù, uma versão mais próxima da pronúncia atual.

Então, como parece impossível dizer exatamente o pretendido, o escrito fica como uma referência fixa sobre a qual se pode discutir. Para Lacan, em Zé gù trata-se da consequência [] da causa []. Mas também pode ser traduzido por portanto, o que deixa o conjunto sem sentido, enquanto para causa, motivo, o chinês usa os ideogramas原因,Yuányῑn, formado por ,Yuán, original, e por , Yῑn, porque. Daí que a segunda
 
Coluna também pode ser traduzida como então acabou.
2.
Na parte dois começa dizendo que o discurso do analista
 
é a lógica da ação e que é difícil de entender justamente por estar escrito, afirmando que a fala abre o caminho para o escrito. Pois foi buscando um exemplo disso que lembrei da construção da Torá: Quando Moisés a recebeu no monte Sinai, uma parte chegou por escrito e outra por via oral, que não se podia escrever, sendo repetida, de geração em geração, por 400 anos, até ser compilada na mesma língua em que a Torá foi escrita, a hebraica, constituindo a parte do Talmude conhecido como Mishná, que contém a lei fundamental. As discussões sobre esta geram a Guemará, que são as opiniões e os ensinamentos dos antigos sábios. Neste exemplo, também usado por Lacan alguns anos após este Seminário, em 1978, parte-se de um escrito. Nós, aqui, também estamos partindo de um escrito; melhor, estamos partindo de uma fala, sobre um escrito, que gerou outro escrito, e outra fala.

Tempos atrás, quando me detive neste tema das origens, imaginei também que se partia de um escrito: imerso na natureza, o homem começou a construir sua cultura lendo os rastros deixados pelos animais e mesmo pelas intempéries. Membro da espécie animal que é, quis deixar rastros também, ou, quiçá, escondê-los atrás de outros mais sofisticados, e para isso inventou a escrita. Daí, à Babel, um passo.

A psicanálise propõe um caminho inverso: com a regra analítica busca-se os rastros escondidos. E isso é possível graças a livre associação. Lacan a toma como falácia, porque sabe que ela não é livre, mas não podemos esquecer que quando Freud a propôs, ela veio no sentido de ser livre de uma imposição, não era mais a hipnose. O analista não proporia nenhum estímulo. Antes, atenderia a indicação de Anna O.: - Deixe-me falar! Esse é o sentido freudiano da livre associação. Mas Lacan, leitor de Freud, lembra que as associações são ligadas. É interessante que, para chegar a isso, ele tome os termos freudianos de energia livre, própria do sistema ics, e de energia ligada, própria do sistema cs/pcs.

Quanto à transferência possibilitadora dessas associações, Lacan menciona uma suspeita de que o SSS seria uma base insustentável para ela. Pois estou de acordo com ele. Também acredito que o SSS seja uma boa base para a transferência, embora minha argumentação seja um tanto diferente da dele: entendo que, para o analisante, a suposição seja de que o analista sabe dele (e muitos acreditam que devam corresponder a esta expectativa), enquanto que o saber do analista é, ou deveria ser, da teoria analítica que lhe serve, não para reencontrá-la no discurso do analisante, mas sim para possibilitar ao analisante suas próprias descobertas concorrentes ao desser, ao desêtre.
3.
Neste caminho, há como que um tropeço na questão da sexuação. As diferenças em torno ao falo não terminam de gerar novas questões. Como diz Lacan, não por acaso justamente na parte três, a linguagem tem seu campo reservado na hiâncias [na abertura] da relação sexual, tal como o falo a deixa aberta. E a continuação de sua frase é surpreendente: o que ele [o falo] introduz não são dois termos que se definem pelo masculino e pelo feminino, mas a escolha que há entre termos de natureza e função muito diferentes que se chamam ser e ter. É por aí que passa a castração simbólica.



SEMINÁRIO 18 DE LACAN
De um discurso que não seria do semblant
10 de março de 1971
V. O Escrito e a Fala
Contribuição de
Maria da Glória S. Telles da Silva
10 de março de 1971

•    Não é por acaso que no título dessa aula, o escrito está colocado antes da fala. Lacan já havia dito que a fala é primeira e depois vem o escrito. Nessa aula, Lacan parece apontar que essa relação é um pouco mais complexa do que parece. Estamos sempre as voltas da questão: o que vem primeiro, o ovo ou a galinha?

•    Como se relacionam essas duas ordens de representação? Essa parece ser o eixo dessa aula. Vai examinar a questão de como a leitura de um escrito tem influência na criação de uma língua. Para tanto, examina a relação da língua japonesa, e seus ideogramas, com a língua chinesa. O diferente modo de escrita leva a diferente pronuncias, logo, gera uma fala diferente. Afirma que nunca falamos senão a partir da escrita [pg.86] e, indo ao grão da questão, aponta a uma relação dialética entre fala e escrito, onde é possível que seja na leitura do que está escrito – lembrem que Lacan diz que o significante está na natureza – que se geram palavras, ou seja, se gera mais fala. Assim disse:
Por ser a representação da fala, (...) a escrita é algo que se constata não ser uma simples representação. Representação também significa repercussão, porque não é nada certo que, sem a escrita, houvesse palavras. Talvez seja a representação como tal que cria essas palavras. [pg.84]
•    Lacan inicia essa aula examinando a relação da fala com o que chamou acoisa. Alerta que o ato de falar é indicativo de que a coisa (em si) da qual eu falo esteja ausente, ou seja, desde o efeito da castração quando, perdido a coisa, o objeto pequeno a, fica a marca dessa ausência que Lacan escreve como acoisa, tudo junto.

•    Questiona o Dasein heiddegeriano, como presença do Ser, já que, para Lacan, a única maneira de ser aí é colocar-se entre parênteses. [pg.72]

•    Leio nesses comentários de Lacan sua a aproximação a esse conceito hegeliano da Aufhebung, a superação conservadora, que aponta que a essência da coisa está ali, mesmo na sua ausência. Mas, só se há ausência, outra coisa, a palavra, pode surgir. Nunca falamos senão de outra coisa para falar da acoisa. [pg.72] Diz Lacan. E afirma: a fala sempre ultrapassa o falante, o falante é um falado
[pg.73]

•    Tudo gira em torno de como representar esse furo que está no nível da acoisa, já que nunca podemos falar da acoisa de modo direto.

•    E, conclui a parte 1 da aula dizendo que a acoisa, justamente não se mostra, se demonstra. [pg. 73] Daí seu valor a escritura.

•    Lembra, então, o grafo da Subversão do Sujeito para dizer que se a escrita serve para alguma coisa, é justamente na medida em que é diferente da fala.  Escrita e representação de palavras, [pg,79] e lembra que já Freud havia indicado algo disso com sua Wortvostellung (representação de palavra), porém, Lacan diz que há uma diferença em relação a Freud, na medida em que para Lacan a representação de palavras é a escrita. [pg.80]1

•    A escrita tem a capacidade de, numa única demonstração, conter diversos elementos que compõem, que presentificam, pelas letras – que ele diz que é o cumulo do escrito [pg.76] –, a lógica da existência do ser. Mas a escrita, necessariamente, vai repercutir na fala, que só pode, diacronicamente, interpretar o escrito. Mas nem tudo não se pode escrever. Daí sua afirmativa de Lacan de que não há relação sexual, já que esta é a própria fala, mas não há nenhum modo de escrevê-la. [pg.77]

•    E por quê demonstrar? Muitas vezes se mostram coisas que as pessoas não vêem. Daí que vai, no final da aula, remeter ao texto da Carta roubada, de Poe (que ele prefere chamar de a carta não reclamada). Há coisas que estão aí, mas não podemos vê-las. A carta, recebida pela rainha, é tomada como sinônimo do falo que circula, do seu conteúdo nada sabemos.

•    Para dizer do quanto nada sabemos de como escrever a relação sexual, Lacan faz um paralelo com a escrita do campo gravitacional de Newton. É algo que sabemos que existe, mas não vemos. Diferente do campo eletromagnético que gera imagem. Porém, Newton escreveu uma formula para descrever o campo gravitacional o que permitiu fazer uma série de proposições e cálculos que gerou avanço científico. Com essa fórmula, foi possível ir à lua.2


•    Sabemos do falo, esse significante que representa o desejo do homem, ou melhor, representa o vestígio da coisa que, como se inscreve como falta e gera, assim, o desejo, na medida que ele vai estar sempre no lugar onde se supõem que completaria a relação sexual e só aparece na própria fala para em seguida desvanecer.

•    Escrever a relação sexual seria, então, algo como fixá-la em uma fórmula. Assim que esse passo segue como um desafio para a psicanálise.

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Notas:
1.Uma das escritas que ainda não foram plenamente decifradas são os glifos da Ilha da Páscoa (Chile). Lacan cita o estudo de Alfred Métraux. Mais recentemente (1996), o antropólogo americano Steven Fischer diz ter decifrado textos dos pascoenses. Segundo Fischer, os escritos rongorongo são uma espécie de canto cosmológico utilizado pelos sacerdotes da ilha, no século 18. Durante seis anos, o antropólogo estudou tábuas de escrita rongorongo guardadas em museus. Foi o texto de uma tábua de 1,26 m por 6,5 cm, do Museu de História Natural do Chile, que forneceu a Fischer os elementos para compreender a escrita. O antropólogo chegou à conclusão de que cada uma das partes em que se dividia a tábua, inclusive os ideogramas, estava separada por um sufixo (parte da palavra que vem depois do radical e que serve para flexioná-la). O sufixo era a representação estilizada de um pênis, o que na língua rongorongo serve como elemento aglutinador dos ideogramas - isto é, os liga uns aos outros para dar sentido ao texto. Na primeira frase da tábua, um pássaro, seguido de um pênis, de um peixe e de um sol, pode ser traduzida como: Todos os pássaros copularam com os peixes e de sua união nasceu o sol. (fonte: Folha de São Paulo, 14 de junho de 1996).
2. A teoria da gravitação de Newton afirma que os corpos se atraem mutuamente em razão de sua massa, mesmo que não estejam em contato direto. Foi com essa ideia de ação a distância que Newton conseguiu dar uma explicação para o “sistema do mundo” e a fórmula é

 







Contribuição de
Luiz-Olyntho Telles da Silva
10 de março/2020

Introdução

Lacan sabe mesmo como épater le bourgeois. Ora, perguntar se está presente quando fala em seu Seminário? Verdade que 12 anos depois, em 1983, no filme Flashdance, de Adrian Lyne, a personagem Alexandra Owens, interpretada por Jennifer Beals, uma operária da indústria do aço que à noite vai dançar em uma boate, sobre seu momento bailarina diz que é como se ela não estivesse ali, como se não fosse ela. Um momento de despersonalização? Não! Como diz Lacan, trata-se da interpretação de uma ausência, trata-se da abrangência da achose, cuja representação é sempre difícil. Lembrou-me da representação do zero: embora intuído ainda antes da era cristã, por babilônios e astecas, que o representavam ou por um espaço vazio ou por um desenho de um homem com a cabeça para trás, a representação atual só apareceu, na Europa, no século X. A dificuldade para sua aceitação devia-se ao fato de abrir caminho para os números negativos, resultados das subtrações. Na achose, o que é subtraído é o petit a. E, se ele não está, o que resta no lugar é o ato sexual visto como castração. Alguns anos atrás, 40 anos atrás, ao criticar um artigo de um analista didata, da IPA, no qual comparava os efeitos da análise, como os efeitos de ficar da fila, esperando por atendimento, e que os resultados eram os mesmos, disse de seu reconhecimento de que em sua análise não havia lyse, não havia a lisina propiciadora da cura. Lacan o diz aqui de uma maneira mais arguta: Anagramaticamente, ele diz que n’a lyse, a menos que concerna à castração.

E o lero lero filosófico, se não serve para muita coisa, diz ele, acabou produzindo o Dasein, a clareira do ser, que ele diz traduzir-se ao francês por présence, a presença. Então Lacan lembra que, ao tratar da Carta Roubada, de Poe – antes de tudo um escrito –, ele termina por jacular Mange ton Dasein, o que deixou o Ministro em má situação. E esse ser-aí, essa presença, ele o desencarna por meio da epoché, que, para ele, é o equivalente a colocar entre parênteses. Está bem, mas temos de lembrar que a epoché, é antes de tudo, uma suspensão do juízo, um repouso mental que pode chegar até a ataraxia. Mas que esse, enfim, é o jeito de ser-aí. Persiste o recurso metafórico para dizer como são as coisas e mais ainda as achose.

1.
Lacan diz aqui que, de certo modo, a escrita mais precisa é a do grafo.

E isso é assim pq a fala pode apoiar-se nela. O grafo permite que tenhamos uma percepção sincrônica do todo do qual falamos diacronicamente. Quando falamos do significante da falta no Outro [S(A/)], por sobre o grafo, vemos que ele não é sem sem a fórmula da demanda [$<>D], por exemplo.

Para dizer da importância do escrito, Lacan lembra de James Février e seus estudos sobre Palmyra, uma cidade situada no centro da Síria, desde 2000 anos antes de nossa era, onde foram encontrados textos de Armoritas, Arameus e Árabes, além de Palmyreano, os quais permitiram ao historiador1  muitas leituras.  Mal sabia Lacan que, nesse presente século, as maravilhas dessa cidade foram quase todas destruídas, entre os anos 15 e 17. E, claro, também lembra da importância, para tudo isso, da geometria euclidiana.

2.
Se há pouco Lacan equivalia o verbo e a ação, aqui, agora, ficará com São João. Afinal, a presença, na qual está interessado, é logocêntrica.

E essa fala, à qual se refere, é como se tivesse a força mágica de um abracadabra, não fosse o tempo medido para tal em éons. Então, se existe relação sexual, tem de ser na própria fala, porque, para escrevê-la, ainda não se encontrou forma, uma esperança, contudo, não abandonada por Lacan. Por isso cita François Jacob2,  um médico geneticista que ganhou o Nobel de medicina e fisiologia, por seus estudos genéticos, em 1965. Ele descobriu nas bactérias genes reguladores, capazes de controlar outros genes, os estruturais. Enfim, tudo é animal!
3.
Lacan agora insiste com exemplos de escritas geradoras de fala, e apoia-se nos estudos de Alfred Métraux3 que, em 1940, publicou o seu A Ilha da Páscoa,  com sua tentativa de decifração da escrita rongorongo da língua rapa nui dos pascuenses, enfatizando que não foi por não ter tido sucesso que não teve importância. Muitos estudos seguintes apoiaram-se nos seus.

Um close das inscrições do Tablete Pequeno de Santiago, mostrando partes das linhas 3 (embaixo) a 7 (acima). Os glifos das linhas 3, 5 e 7 estão de cabeça para cima, enquanto os das linhas 4 e 6 seguem de cabeça para baixo.
Similarmente, ele também apoiou-se nos estudos de Freud. Então dizer que Freud não concorda com ele, é só uma piada, e de mau gosto. Quando Freud, em seu estudo sobre o inconsciente usa a expressão representação palavra, é para diferençar da representação afetiva. Uma diferença importante para dizer sobre o que a repressão age e onde é inócua.

Depois, quando se refere aos estudos Xu-Shen,  autor do Shuō wén Jiě zì [说文解字 – explicar palavras], diz dos primeiros estudos sobre a estrutura dos caracteres chineses. Não preciso dizer que a tradução desse seminário ao português deixa muitas dúvidas. Verdade que a leitura dos logogramas chineses, por Lacan, também. Então não sei, se quando ele usa o signo wen [文] e o traduz como o signo da civilização, ele está se referindo ao que é, ou ao que ele pensa que é! Se tivesse que traduzir esse signo, diria simplesmente texto. Mas reconheço que com a palavra texto podemos dizer muitas coisas diferentes.

Em suma, importa o que está escrito. Como se lê, será sempre uma outra questão. Verdade que Lacan diz da importância da palavra para poder dizer do escrito: a palavra também tinha que já estar disponível. Tempos atrás, escrevendo sobre o assunto, disse que o escrito podia ser o rastro de um animal, um cheiro, um desenho de estrelas no céu. Não por nada o mestre quando fala desses passos, registra-os em éons. Para exemplificar a questão da leitura, menciona a leitura japonesa dos ideogramas chineses, pois a língua japonesa tomou os caracteres chineses (Kanji) para sua escrita. Por isso, em japonês, há duas maneiras de ler. Quando a pronúncia repousa estritamente sobre o fonema do caractere chinês e não evoca em nada o japonês, uma vez que não significa nada nessa língua, diz-se On-Yomi. Mas há também uma tradução japonesa historicamente fixada, na qual buscam dizer o que o caractere chinês quer dizer. Essas duas escrituras, chamadas Kun-Yomi (Yomi = leitura), coexistem, lado a lado em um texto. Os caracteres chineses são acompanhados, redobrados, da escrita de sua pronúncia, logo de sua leitura. É por isso que Lacan, em Lituraterre, escreve que no Japão o sujeito está dividido, como em todo lugar, pela língua, mas um de seus registros pode se satisfazer com a referência à escrita, e o outro à fala. O On-Yomi é a referência à letra, enquanto que o Kun-Yomi faz referência ao Outro da fala.

Depois dessa diferenciação, Lacan dirá que não há metalinguagem porque sempre falamos a partir da escrita.

4.
Por fim, uma breve alusão ao seu texto sobre A carta roubada, na qual equipara a carta ao corpo da mulher, ao corpo da Rainha, por que não!
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Notas:
1. James Février: Histoire de l’écriture, Paris, Payot , 1948.
2. François Jacob, O Rato, a Mosca e o Homem. São Paulo, Companhia das Letras, 1998, 160p.
3. Alfred Métrux. A Ilha da Páscoa. E. Fermi, 1940 (1ª ed.).



Fonte:https://en.wikipedia.org/wiki/The_Meaning_of_Meaning#:~:text=The%20Meaning%20of%20Meaning%3A%20A,Crookshank.